domingo, 9 de março de 2025

Eu não morri

 Eu não morri.

Aquela que você achou que morreu ou que eu tinha matado, não morreu.
Eu nunca morri.
E, no entanto, morremos todos, todos os dias.
Mas ela, eu, aquela eu, sou eu e sempre, sempre fui, porque sou assim, não sei e não quero ser de outro jeito, talvez, e, é bem provável, eu tenha me perdido.
Pessoas se perdem, e, sendo pessoa me perco também.
Mas morte não, eu estou aqui.
Eu sempre estive aqui.
Eu sou a poeta que pisa descalça, que beija  paredes, que ama amar a vida, que tem a floresta no coração.
Eu sou aquela que chora fácil, porque tem um oceano à flor da pele, que ama chuva, que ouve os passarinhos com sorriso nos olhos, que é amante da lua, e observadora das estrelas, que vê e faz corações em toda parte.
Eu estou aqui. Eu sou eu e sou muitas, e ao mesmo tempo uma.
Que te amou e te ama.
Que quer e precisa ser amada inteira, que quer amar inteira, respeitada em todas suas faces, em cada pedacinho de alma.
Que quer voar ao vento, bons ventos,  como as folhas nos galhos que dançam farfalhando no céu, mas que tem raízes profundas na terra mãe.
Eu sou poeta e existo aqui, agora.
Não conheço o futuro, só o presente.

E, por isso, arre, devo existir, já dizia meu poeta favorito.


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

A escola para Artur


Artur me intriga, não o conheço bem, mas algo nele me chama atenção, sua presença ali no quintal, no meio de tanta gente maior que ele, no meio do sol que dá vida mas que teima em arder cada dia mais forte, no meio da terra que acolhe, mas castiga com a secura.

Artur está ali, sempre presente, mas também ausente, sai de perto de seus pares - bebês de um ano e meio, dois -  muitos bebês para poucas professoras - e se arrisca no meio dos grandes, crianças de 4, 5, 6 anos, anda muitas vezes com um cobertor arrastando pelo chão, pela terra, pelas folhas, outras vezes só com sua chupeta, anda no meio de tanta gente sozinho, e no entanto, parece sempre querer um colo.
A escola para Artur parece abrigo - onde um bebê poderia explorar a natureza, a solitude, onde poderia escolher por onde caminhar com liberdade e autonomia?  Mas a escola para Artur também parece carecer de acolhimento, ele que busca um colo aqui, ali, consegue, perde, caminha, explora, segue...

Artur me intriga talvez mesmo porque para mim sua postura seja uma metáfora da vida, a eterna contradição entre presença e ausência, entre liberdade e proteção, entre a viagem e o porto seguro, o caminhar e o colo, o explorar e o abrigo, o sol que ilumina e que também queima.

domingo, 30 de junho de 2024

Nota reflexiva sobre a disciplina “Imagens, transmissão e sobrevivências: perspectivas educacionais”

 

o afeto é revolucionário


Sou professora, logo otimista

Maria Victoria Benevides

 

Neste semestre me vi inserida em contextos de discussões, pensamentos e diálogos que muito me tocaram, mexeram comigo não só em um nível acadêmico, mas também numa perspectiva mais profunda, íntima mesmo, me vi, em duas disciplinas, conversando com autoras e autores dos mais diversos tempos e lugares, mas que traziam em comum, o sentimento de necessidade, necessidade de entender, compreender, denunciar, transformar essa humanidade que somos e não somos.

Vi mais de perto e pude sentir, ainda que numa perspectiva epistemológica que a mim me tocou também a alma, o quão cruel essa humanidade foi, pode ser e ainda é, quantas camadas nos formam e nos escapam ao mesmo tempo, quantos crimes contra nós mesmos foram e ainda são cometidos.

Vi também e senti o quão potentes nós também fomos, somos e podemos ser, quanta luta foi enfrentada e ainda é, como a arte, a escrita, a educação, a academia, as pesquisas, as imagens, as memórias podem nos trazer de volta, de volta de uma humanidade perdida, de volta à uma humanidade que toca o real e que questiona, que luta, que aprende, que ama – naquilo que o amor pode ser e é o mais revolucionário – o poder de nos permitir ver e ser seres humanos dignos de respeito uns para com os outros, para com a vida de uns e de outros, de todos e de cada um.

Os textos propostos me fizeram arder por dentro de alguma forma como nos diz Didi-Huberman[1], arder como as imagens quando tocam o real, as discussões em sala, as imagens projetadas, o acolhimento e a disponibilidade da professora Fabi,  a aula magna com a professora Maria Victoria Benevides, os cravos recebidos, a caminhada ao Monumento aos mortos e desaparecidos da USP, as visitas, sobretudo, ao bairro da Liberdade, que me tocou tanto, que após essa experiência quaisquer outras tentativas de reflexões para o trabalho final falharam categoricamente. Precisava escrever sobre essa experiência, como necessidade poética e política, no sentido de urgência de vida como nos brinda Rilke em suas Cartas a um jovem poeta.

Todas essas experiências do semestre me foram muito significativas, me fizeram refletir, me causaram dor, indignação por um lado, e ao mesmo tempo, visto que a contradição é o sobrenome da humanidade, me causaram também esperança, uma genuína, embora por vezes cansada, vontade de continuar, de estudar, pesquisar, escrever mais, de viver lutando as lutas cotidianas com poesia e amor (pois que essas são minhas principais armas), de continuar questionando, de continuar buscando ser melhor, viver melhor, com quem está ao meu lado no dia a dia, a revolução é viral, me disseram, é no miúdo das relações ordinárias que as grandes transformações se iniciam, é no cotidiano que tocamos o real, que o afeto é revolucionário, e é aí, precisamente, que está a minha revolução.

 

 

À professora Fabiana Jardim, minha gratidão.

 

Bruna Cadenas Cardoso

Junho de 2024



[1] Didi-Huberman, Georges. Quando as imagens tocam o real. Pós, Belo Horizonte, v.2, n.4, pp.204-

219, nov. 2012.

domingo, 19 de maio de 2024

Sobre alguns dias de abril e maio


I.

Foi um quase amor.


Bateu na trave e foi bom.

Seria complexo, intuo.

O universo então me apresentou a lição.

Com carinho e intensidade.

Exigindo de mim coragem e humildade.

A tentação de alimentar ainda se apresenta, mas seguirei firme se Deus quiser.

A lição volta até que o aprendiz aprenda a lição.

04.05.2024



II.

Você foi um vento bom que passou bagunçando meu coração e me fazendo sorrir.

05.05.2024


III.

Sobre ela

Um rio caudaloso se mostrou em meu caminho e eu, entrei com receio e expectativa, mas com coragem, mergulhei devagarinho e fui.

Uma pedra se apresentou no meio do caminho, segui o conselho do rio e subi, não, este rio não era para mim, não agora, talvez nunca.

Me levantei e pulei para a margem, cabelos e coração molhados. Respirei fundo.

E é claro que meu coração palpitou e soltou algumas lágrimas, porque sou intensa. 

E é claro que fiz diversos questionamentos, porque sou perguntadeira.

E, é claro, também, que em algum momento me soltei na relva, deitada, molhada, deixando que o Sol me seque os cabelos, a pele e esse quase amor, porque confio.

Acima de tudo, amo e confio.

17.05.2024




sexta-feira, 29 de março de 2024

A realidade extrapola a imaginação

Foi me dito que a realidade extrapola a imaginação, e, confesso que isso me tocou de alguma sorte, logo eu, que sou toda imaginação, que adoro pensar e escrever histórias, que vejo poesia em toda parte, que olho o mundo com olhos encantados e crio a partir dele, com ele, para além dele. Mas a vida fala mais alto diz uma voz em meu interior já faz um tempo, a vida, aqui, não poderia quiçá representar a tal da realidade, essa realidade que extrapola a imaginação?

Talvez sim, não há mesmo como negar a urgência da vida, do real, do tempo presente, que também é passado e futuro de forma contínua. Não há como negar o ser, o ser que pretende ser, e assim o é hoje, amanhã e ontem.

Para conhecer a si e ao mundo é preciso viver (e também imaginar – insisto,  nem tudo é passível de ser vivido, nem tudo é necessário de ser vivido), mas ainda assim viver é preciso (e, arrisco-me aqui a contrariar poeticamente um dos meus poetas preferidos, que Pessoa me perdoe), mas sim, viver é preciso para se conhecer, para se tecer redes de significados e relações que façam jus a quem somos e a quem queremos ser, e até mesmo para imaginar é preciso viver o real.

Para criar mundos, é preciso estar em um mundo, para questionar a realidade, é preciso fazer parte dela, para propor mudanças e projetos, é preciso viver.

Então sim, sinto-me convencida de que, de alguma forma, a realidade extrapola a imaginação, e isso não é um problema necessariamente, pois, apesar de tudo, é tão lindo viver.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Vidas passadas



Eu não pude deixar de olhar para você, foi num ínfimo de segundo que nossos olhares se cruzaram e eu me vi ao invés de te ver, vi o que seus olhos viram, me vi sorrindo de leve, com olhos cheios de recém morridas lágrimas, saí acabada do cinema, sabia que seria assim, algo semelhante à isso, sabia a dor que ia sofrer e fui mesmo assim, fui porque precisava ver outra história como a minha, outras vidas que estando juntas não estão, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência, embora as histórias sejam muito diferentes, há um passarinho que pousa num galho em comum, há todo esse sentimento gigante que não se sabe o que fazer, um amor que fica no ar, meio perdido, sem rumo, mas que ainda assim é amor, e para sempre vai ser, não para essa vida, é verdade, para um futuro ou do passado, quem sabe... saber é um verbo tão difícil quanto amar, embora amar, ah, amar em si é fácil, o difícil é saber, é o não saber.

Pois assim sem saber, te vi e precisei te olhar, uma questão de respeito talvez, um respeito entre almas, quando passei mais cedo, você dormia na marquise da loja, agora de noite, você estava deitado no mesmo lugar, mas acordado, estava como relaxado, não fosse a crueldade do mundo, diria que estava tranquilo, e foi ali que te olhei, te olhei porque não podia te ignorar, te olhei porque você é, assim como eu sou, e você também me olhou, mas com as lágrimas recém caídas, com o coração em oceano, você me fez ver a mim, me foi espelho, e houve ali algo para mim, te abençoei, porque gosto de abençoar, porque eu mesma precisava de bênçãos. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Sacramento, domingo cedinho, quarto de hotel.

Miau, miau miau.

Onde está o gatinho que tanto mia? 

O que será que ele quer?

Abro parcialmente a janela, a luz entra, mas não o consigo ver.

Miau, miau, miau - os miados continuam.

Abro a janela inteira, o procurando, olho para baixo e lá está ele, ou será ela?

Ele mia olhando para mim, olhos verdes claros brilhantes, corpinho laranja, parece querer se achegar, mas como?

Da onde ele vem? Será que ele é do hotel? Será que ele quer entrar?

Saio do quarto para ver a porta do lado que dá para o estacionamento onde ele está, a porta está trancada, mas o que é uma porta fechada, se há uma janela aberta?!

Assim que entro no quarto de volta, ele entra pela janela - surpresa! - ele conseguiu pular, é claro, é um gato e gatos saltam, gatos entram onde querem.

Ele entrou em meu coração.


O que eu faço? Pega ele e coloca para fora diz minha colega do banheiro, sem dar muita atenção ao incrível visitante inesperado.

Chego pertinho dele e faço carinho, não sei se posso pegá-lo, não tenho tanta intimidade com gatos, já fui meia-mãe de Caetano e sinto saudades dele, será que eu sei?

Ele se derrete em meu carinho, vira a cabecinha, inclina as orelhinhas, ronrona, ah, meu coração se alegra, ele gosta de meu carinho, ronrona e entra ainda mais em meu coração.

O pego no colo com cuidado, ele deixa, o levo ainda de camisola até a recepção, torcendo para que ele seja do hotel, para que fique, também aqui e não só em meu coração.

O dono do hotel me olha espantado, não ele não é daqui, é gato de rua, cuidado, diz ele. Pode colocar ali fora, deve ser da vizinhança, completa.

O coloco na porta delicadamente, mas gatos são gatos, entram onde querem entrar, ele, lógico, entra de novo no hotel, o dono vai atrás, o gatinho indiferente a de quem é o prédio, corre pelos corredores, entra e sai de meu quarto antes que eu volte e vai embora - não o vejo mais.

Mas ainda assim, ele ficou, ficou em meu coração.

17.07.2022

Eu não morri

  Eu não morri. Aquela que você achou que morreu ou que eu tinha matado, não morreu. Eu nunca morri. E, no entanto, morremos todos, todos...